Neste artigo, refletimos sobre as escolhas que precisamos fazer em uma era onde a tecnologia está superando a capacidade humana. Vamos analisar como estabelecer padrões éticos.
A tecnologia pode ter benefícios científicos, sociais ou de outras naturezas em si mesma, mas não terá um consenso ético intrínseco, o que significa que os seres humanos precisarão desenvolver um consenso ético em torno dela. A palavra "ciência", em nosso uso comum, implica "tecnologia" no sentido de algo que pode ser útil aos seres humanos. Essas tecnologias podem facilitar nossas vidas e contribuir para uma melhor qualidade de vida, mas também podem suscitar questões éticas.
Acreditamos que o significado da ciência e da tecnologia é limitado pelo que a tecnologia pode realizar, o que significa que, para que a ciência e a tecnologia sejam reconhecidas como ferramentas úteis para as pessoas, são necessários diversos consensos, inclusive éticos. No entanto, nesse processo, as pessoas frequentemente encontram dificuldades por não possuírem critérios claros para avaliar a ciência e a tecnologia, especialmente em uma era em que é difícil definir quais valores são absolutamente valiosos, muito menos determinar o que é certo ou errado em termos éticos.
Nessa situação, precisamos considerar que os avanços da ciência e da tecnologia não se resumem a inovações técnicas, mas também abrangem o impacto mais amplo que exercem sobre a sociedade humana. Por exemplo, tecnologias avançadas como a inteligência artificial estão profundamente enraizadas em nosso cotidiano, mas também existem preocupações de que essas tecnologias possam infringir a liberdade e a privacidade individuais. À medida que a tecnologia avança, devemos desfrutar dos benefícios que ela traz, mas, ao mesmo tempo, analisar cuidadosamente e nos preparar para seus possíveis efeitos colaterais.
Penso também que é difícil chegar a um consenso sobre outros aspetos que são difíceis de explicar cientificamente, como os aspetos religiosos. No entanto, só porque é difícil de avaliar, não significa que seja perigoso fazer julgamentos baseados apenas em benefícios científicos ou tomar decisões que não se ajustem à realidade atual das pessoas. Nesta situação, é essencial regulamentar e gerir a utilização da tecnologia com base em normas éticas acordadas por toda a sociedade.
O primeiro problema com a clonagem humana é a questão da dignidade humana. Ao falar sobre dignidade humana, a maioria dos cientistas se concentra na questão de quando um embrião é considerado uma vida, sendo o ponto crucial o momento em que isso é definido. Em outras palavras, eles baseiam seus argumentos em fundamentos estritamente científicos, mas em uma situação em que mais da metade da população mundial professa uma religião que acredita que Deus criou a vida, argumentos não científicos também são importantes, pois, como dissemos anteriormente, o consenso é necessário para que a ciência seja reconhecida.
De uma perspectiva cristã, que crê na existência de um criador, a clonagem humana está além da autoridade de Deus. Como acreditam que somente Deus pode criar a vida, opõem-se ao ato de dar vida a um ser que não seja Deus. No caso dos humanos, a criação de uma nova composição genética por meio da reprodução sexual é descrita como algo que somente Deus pode fazer. Portanto, a ideia de humanos combinarem artificialmente sua composição genética é percebida como um desafio a Deus. Para aqueles com forte crença em Deus, este é o argumento mais forte. Mas a questão da dignidade humana não é levantada apenas em termos religiosos.
Trata-se também de uma questão ética, como evidenciado pela máxima de Immanuel Kant de que os seres humanos não devem ser instrumentalizados e utilizados, mas sim tratados como fins em si mesmos. Em outras palavras, considerando que cada ser humano possui uma subjetividade única, a clonagem humana é problemática porque reduz as pessoas a mercadorias que podem ser criadas com intenções específicas. Dessa perspectiva, a clonagem humana não é apenas uma conquista tecnológica, mas um sério desafio ético que pode ameaçar o valor intrínseco dos seres humanos.
Vamos analisar a clonagem humana em um contexto mais prático. O primeiro e mais comum propósito da clonagem humana é o de questões reprodutivas, como pessoas que não conseguem ter filhos devido à infertilidade ou à homossexualidade. Ela pode garantir o direito à reprodução para pessoas que não conseguem se reproduzir naturalmente. Nesse caso, a clonagem humana pode trazer felicidade às pessoas ao atender a seus direitos, mas a dignidade humana fica ameaçada, pois envolve livre arbítrio: os genes de um feto são escolhidos intencionalmente por outro. É claro que o conceito de livre arbítrio tem significados diferentes em diferentes épocas.
Isso também levaria à mercantilização dos seres humanos, no sentido de que outros poderiam determinar seletivamente as características de um indivíduo. De muitas maneiras, é difícil argumentar que casais inférteis ou homossexuais se beneficiariam mais com a clonagem humana do que com a adoção ou a fertilização in vitro.
O segundo uso mais comum da clonagem humana é para fins médicos, como o transplante de órgãos. Nesse caso, alguns justificam o uso de embriões sem considerar seu estágio de desenvolvimento. É claro que é fácil ignorar o embrião por se tratar de um ser em potencial que ainda não possui voz, mas devemos nos concentrar na possibilidade de que ele possa se tornar uma pessoa com consciência moral no futuro.
Em suma, a ciência e a tecnologia só podem ser reconhecidas como tal se houver consenso entre as pessoas que vivem atualmente sobre diversos aspectos, incluindo os éticos, sociais e econômicos. Nesse processo, negligenciamos muitos aspectos, e esse é um problema que não pode ser tratado com leviandade. Nesse sentido, a clonagem humana ainda é prematura em muitos aspectos, inclusive nos religiosos e éticos. Além disso, à medida que a ciência e a tecnologia se desenvolvem, não devemos nos ater apenas aos aspectos positivos da tecnologia, mas também considerar seriamente as diversas questões éticas e sociais que podem surgir e preparar respostas adequadas para elas.